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A vida offline

A vida offline

A geração de pais que, no início do século XXI, está exercendo a sua paternidade ou maternidade constitui um grupo com uma singularidade marcante, pois é a última geração que não teve uma infância digital, mas que são pais de crianças que já nascem imersas nesse universo. Na verdade, antes mesmo de seu nascimento, esses bebês já fazem parte desse mundo digital, seja em virtude das buscas que os pais fizeram em blogs e sites sobre “o que é ser pai ou mãe”, por exemplo, ou ainda, ao comunicar a todos os parentes e amigos distantes, via e-mail, redes sociais sobre a gestação desse novo ser, além de muitas outras situações que são corriqueiras, atualmente. Esse é o cenário no qual nossos filhos e filhas são gerados, criados e educados, hoje. Muito do que vivemos em nossa infância não existe mais, ficou obsoleto, nossos filhos conhecem por foto na internet e, muitas vezes, não conseguem entender ao certo o funcionamento de objetos que manuseamos na idade deles: “Como assim, mãe, rebobinar uma fita, arranhar um disco?”. Nada disso faz sentido na contemporaneidade, mas foi vivido muito intensamente por nós e sim, faz muito sentido na nossa existência, nas memórias que guardamos com tanto afeto de nossa infância.

É sobre esse mundo offline e esse compartilhamento de experiências entre pais e filhos que vamos falar um pouquinho aqui. Vivemos o tempo da virtualidade das relações, independente da idade. A exigência de estar permanentemente online inaugura uma forma de convívio em que as pessoas podem estar de corpo presente, mas psiquicamente, ausentes. Sabemos que as crianças reagem aos estímulos produzidos pela cultura de cada época. Esses são os estímulos que nossas crianças estão sendo expostas, junto a essa constatação, por isso, indago: como elas estão respondendo? Como será a adolescência e a vida adulta delas, submetidas a tamanha força que o ONLINE imprime? Antecipo-me em afirmar que a ideia deste texto não é condenar o uso de aparelhos eletrônicos, mas ponderarmos que o seu excesso traz danos, em especial, para as crianças pequenas. O texto propõe abrir um campo de pensar e criar para além e com o mundo virtual ou cibernético.

Se pensarmos especificamente nas crianças de 0 a 3 anos, nesta fase, está em jogo a ativação de todo o aporte cerebral, havendo uma proliferação de conexões neurais, sendo um tempo de muitas experimentações sensório-motoras, que darão início a toda a multiplicidade de funções, quais sejam: cognitivas; afetivas; motoras; constituição de si; o estabelecimento da relação com os outros e a apropriação de seu corpo. Como pensar isso nas relações virtuais? Nestas, não há a vivência no corpo, há uma dissociação entre o que se vive virtualmente e o corpo, além disso, não se trata de uma relação mediada. Por todos esses fatores, conclui-se que a utilização de equipamentos eletrônicos nos 2 primeiros anos de vida é de suma toxicidade para o desenvolvimento.

Em contrapartida, sabemos que quando os pais apresentam os brinquedos e as brincadeiras para as crianças, eles dão significação para aquele objeto, aquela atividade. Segundo o neurocientista Erik Kandel, “a maneira que o adulto tem de falar espontaneamente com as crianças cria interconexão neuronal, porque liga o percebido a sua representação, liga a palavra com o objeto, fazendo com que esse percepto tenha um sentido”. Quando falamos com uma criança, modulamos a voz de uma forma endereçada para ela, estamos atentos às suas expressões, seus gestos. Quem está com a criança é afetado pelo que afeta à criança.

A partir dessa convicção de todos os benefícios que essa relação direta entre pais e filhos traz, iremos propor alguns jogos e brincadeiras que podem ser feitos nos momentos offline, em família.

Começaremos pelos bebês: o primeiro brinquedo interativo de um bebê é o contato físico com o adulto, com o olhar, o toque e o movimento. Brincar de fazer carinho e olhar para o bebê, deixá-lo responder com outro olhar, aninhá-lo no colo e fazer movimentos ritmados ou balançar para frente e para trás, suavemente, na rede ou na colcha, cria oportunidades para a aquisição de experiências diferentes, além do estabelecimento de vínculos com os responsáveis, que favorecem a segurança e a tranquilidade. Depois que o bebê aprender a engatinhar, oferecer novas experiências: na grama; na areia ou subir e descer em um pequeno declive. Utilizar uma caixa com um buraco para que o bebê passe por ela, falar com ele do outro lado e mostrar- -lhe um brinquedo. Além disso, brinquedos para bater, para fazer sons, cantar e pintar encantam as crianças.

Existem, ainda, os “brinquedos de afeto”: ursinhos de pelúcia; um pedaço de pano ou de cobertor; a boneca preferida, que são objetos importantes para a tranquilidade e segurança dos pequenos. Tais brinquedos devem receber cuidado e atenção dos adultos e ser colocados onde a criança consiga pegá-los.

Podemos criar ainda o que estamos chamando de ambientes de exploração. Pendurar materiais no teto, tiras de jornal, papel laminado, celofane, objetos que produzem sons. Dessa forma, criamos ambientes sonoros para a exploração musical e que resultam em brincadeiras coletivas para a socialização.

Crianças pequenas gostam de imitar as pessoas, especialmente quando estas produzem situações que chamam a atenção. As crianças apreciam pegar a colher e dar de comer ao seu ursinho, colocar panos na cabeça. Portanto, é indispensável favorecer tais iniciativas e dispor dos materiais necessários.

A brincadeira com água e pintura é sempre muito bem-vinda pelas crianças. Canecas dentro de bacias, banhos de mangueira, pintar muros de azulejos, pintar papéis de diferentes tamanhos, com giz de cera grosso, pincéis e tintas.

É preciso lembrar que cada criança é diferente da outra e que a idade não é o único critério para verificar os interesses e necessidades de cada uma. Torna-se um equívoco pensar numa infância única, marcada pelos mesmos interesses, a partir da ideia de uma homogeneidade determinada por termos etários. As crianças são, antes de tudo, sujeitos singulares, pois desde o nascimento, recebem influências de seus contextos culturais, portanto, possuem diferentes formas de se expressar, modos de ser, pensar e agir próprios, que só podem ser identificados pelos adultos do seu convívio e entorno afetivo.

A influência, promovida pelo convívio, necessita ser considerada ao tratarmos desse assunto, a intimidade da família é capaz de atuar nos interesses diretos e na promoção do desenvolvimento desse sujeito único. Essa singularidade jamais poderá ser contemplada por jogos, filmes ou qualquer outro aparato de hipermídia, porque eles são pensados para essa criança sem identidade, integrante de infância homogênea e unicultural, ou seja, sem a identidade e a influência dos valores e visões de mundo específicos da sua família.

Logo, fazer uso da simplicidade de coisas e momentos cotidianos é uma sofisticada forma de educar, principalmente porque demanda tempo e presença, reconhecendo a convivência como fundamental para o desenvolvimento infantil. Seguem algumas sugestões que podem contribuir com a ideia.

Aos três anos, as crianças começam a ter consciência de quem são e aprendem a conviver em grupo, fazendo negociações e dando explicações sobre as coisas que fazem. É uma fase de intenso desenvolvimento da linguagem e de grande interesse pelas brincadeiras imaginárias, como a brincadeira de faz de conta, atividade principal da criança nessa faixa etária.

O ritual de contar ou ler histórias para os filhos é uma prática herdada de nossos ancestrais, que generosamente partilharam histórias para educar crianças. Essa prática vem sendo cada vez mais incentivada por especialistas em desenvolvimento infantil. A leitura de livros deve estar presente desde a gestação, mas nessa fase ganha um colorido especial. As crianças fazem uma imersão nas histórias por já estarem no jogo simbólico, criam fantasias, projetam-se, aumentam vocabulário, dentre outros. Ler para o seu filho traz uma proximidade afetiva, um compartilhamento de experiências, de significações. Ao ler um livro, há muito mais em jogo do que só o “entendimento da história”, trabalhamos a empatia, a sensibilidade, a linguagem expressiva e compreensiva. A forma como cada criança compreende e se identifica, ou não, com aspectos de determinada história é tão diversa quanto a própria humanidade, portanto, ouvindo histórias, ela pode criar e recriar conhecimentos, interagir e se apropriar de forma crítica e criativa da realidade, sentir curiosidade e prazer por conhecer.

Atividades como dançar, pintar, desenhar e construir são outras formas de expressão lúdica. Como já dissemos, as crianças gostam de construir objetos e estruturas idealizadas pelo seu imaginário com caixas de papelão, arames, gesso, argila, tubos, tecidos, madeira. São brincadeiras prolongadas que podem levar dias.

Há ainda as músicas infantis, seguidas por gestos. Temos aquelas que aprendemos em nossa infância e que podemos, ou melhor, devemos ensinar aos nossos filhos, pois isso é transmissão de tradição e cultura.

O contato com a natureza é sempre muito bem-vindo, assim, outras boas brincadeiras são as que envolvem areia ou água. No brincar com água, por exemplo, a criança pode dar banho em bonecos, lavar e guardar os objetos, aprender a se auto-organizar.

À medida que vão crescendo, ampliam o entendimento e podemos complexificar muitas brincadeiras. Fazer sombras ou pisar na sombra dos outros pode gerar interessantes reflexões; brincar no jardim desperta interesse pelos pequenos bichinhos: aranhas; joaninhas; caracóis.

Sempre que possível, privilegie as brincadeiras ao ar livre. A natureza está profundamente associada com a saúde e com a alma humana. O convívio com a natureza vai nos afastar das telas, reduzir o consumismo e o materialismo excessivos, promover o livre brincar, vai gerar convívio entre as famílias, entre crianças que vão se conhecer e aprender a lidar umas com as outras, desenvolver empatia.

Outro ponto que merece atenção é a fala. Deixar as crianças falarem possibilita que elas revelem seus interesses. Com o passar do tempo, a independência e os saberes adquiridos possibilitam atividades com autonomia, como: fazer piquenique; construir uma cabana com caixotes etc.

O Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Básica, com a parceria do UNICEF, elaborou o e-book “Brincadeiras de criança: brinquedos e brincadeiras para crianças pequenas”. Lá, é possível encontrar indicações que dialogam diretamente com o chamado do verso do poeta Manoel de Barros, que abriu nossa conversa. Convido-os a desligarem os aparelhos do mundo virtual para encontrarem a felicidade abundante dos quintais, jardins, praças, serras e praias deste vasto mundo real, como nos convida o poeta.

Foi escrito por Ticiana Melo, Terapeuta Ocupacional.

Revista Criançar, nº 12, de 2019.

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