Por que você não me obedece?

Por que você não me obedece?
Pensando as relações familiares na construção da autonomia infantil

Vamos conversar um pouco sobre a relação entre o exercício da autoridade e a construção da autonomia infantil? O desenvolvimento moral na infância passa pela superação do egocentrismo, no qual a criança apresenta atitudes de onipotência e é dominada por seus instintos. As crianças crescem se opondo, testando a autoridade e o limite do adulto em relação aos seus anseios, frustrando-se quando não saciadas, adiando e esperando a satisfação. É assim que descobrem a existência do outro como ser à parte de seus desejos e suas necessidades, amadurecendo, aos poucos, e adquirindo os sensos de autonomia (exercício da sua individualidade) e solidariedade (habilidade para viver em comunidade). Trata-se de um processo de aprendizagem e é preciso tempo e persistência para acontecer.


Você teme ser firme e apresentar limites ao seu pequeno? Percebo temor e insegurança em alguns pais
de que, ao fazer valer alguns limites, gerem insatisfação na criança e essa possa os rejeitar ou não se sentir forma como exercem a autoridade junto aos filhos. Para exercer autoridade é preciso “ter prestígio”, ou seja, ser exemplo em suas próprias atitudes no convívio com o outro. Não é necessário
ser exemplo de perfeição, mas é necessário ser coerente. A coerência é uma das principais atitudes para um bom exercício da autoridade como, por exemplo, a coerência entre a autoridade que se quer e a autoridade que se permite a outras figuras de poder no lar e fora dele (o síndico do condomínio, a diretora da escola, professores, avós, dentre outros). Entre o casal, nada enfraquece mais a autoridade
dos pais que a discussão sobre o filho em sua presença ou o desrespeito entre os pais. Ainda é necessário ter coerência entre as “infrações” apresentadas pela criança e as consequências a serem por ela assumidas, para corrigir e gerar responsabilidade. Ser coerente também utilizando os devidos elogios aos comportamentos que evidenciam o crescimento da capacidade de conviver bem.


Na rotina familiar, além da coerência, muitas atitudes dos pais podem favorecer o exercício da autoridade e o desenvolvimento da autonomia na criança. Dentre elas destaco: naturalidade, serenidade, bom humor, firmeza, amorosidade, escuta sensível, observação, compreensão, perdão, sinceridade, assertividade, criatividade, flexibilidade, dedicação, determinação, disciplina e constância. Vamos refletir um pouco mais sobre essas atitudes? As atividades da vida diária e da rotina escolar são naturais de serem vividas e não precisam ser um campo de batalha, pois, se tratadas com a naturalidade,
diminuirá a carga de ansiedade amada por eles. Também é comum os pais me falarem que temem sufocar a personalidade da criança, seu jeito assertivo de se expressar e defender seus desejos, tolher a criatividade e atrapalhar sua autonomia. Costumo ajudá-los a perceber os equívocos cometidos, pois
tudo isso que temem acontece pela ausência de vínculo e amorosidade na relação, pela negação da subjetividade da criança e não pelo exercício coerente da autoridade parental. No exercício da autoridade, aquele que assume o poder de dar limites necessários à convivência social o faz em benefício de quem a que existe em torno delas e isso é importante. As crianças costumam usar os assuntos
que mais mobilizam seus pais como forma de controle na relação. É preciso, ainda, ter sensibilidade para
observar o comportamento da criança, ela, muitas vezes, denuncia algo que não está bem na relação familiar como um todo. Usar explicações simples e concisas principalmente com a criança menor e, à
medida em que vá crescendo, escutá-la e envolvê-la na construção das regras familiares e sociais, isso a torna responsável e autônoma.

Por Sâmia Gomes
Psicóloga – Mestre em Educação e
mãe da Sara e Sabrina (ex-alunas)

Texto retirado da Revista Criançar – nº 10 – Ano 2017

Outras postagens
Leave a Reply

Your email address will not be published.Required fields are marked *