Tudo por uma selfie

Tudo por uma selfie

Estima-se que mais de 880 bilhões de fotografias foram tiradas em 2014, segundo a empresa de serviços de internet Yahoo. Diante de tantas possibilidades – e facilidades – tecnológicas, o número não parece “assustador”. Outro dado, contudo, compartilhado no ano seguinte pelo site de tecnologia Mashable, merece uma reflexão acurada: até setembro de 2015, 12 pessoas morreram em acidentes envolvendo selfies, superando o de mortes causadas por ataques de tubarões (8 no mesmo período). Isso passou a ser considerado, por conseguinte, uma situação de risco em alguns países. O governo russo, por exemplo, divulgou uma campanha aconselhando os fotógrafos a tirarem “selfies seguras”, evitando posar na frente de animais selvagens ou pendurados na antena de TV. Vale tudo mesmo por um registro fotográfico?

O fenômeno mundial selfie nada mais é do que um autorretrato digital. Temos diferentes razões para tirá-las e compartilhá-las, mas, em tempos de virtualidade, o que escolhemos expor ao mundo é o que dá aos outros um vislumbre de quem somos – ou do que, pelo menos, desejamos que acreditassem que somos – e isso afeta direta ou indiretamente as motivações, sim. Há uma busca pelo elogio, por ser reconhecido e – por que não? – amado implícita na intenção de (se) expor. As curtidas surgem como uma nova modalidade de aceitação, salientando o prazer de atender a ânsia de engrandecimento do ego e a de pertencimento a um determinado grupo social visto como distinto. Seria esse tipo de aceitação, porém, fidedigna ou, até mesmo, saudável?

Sabemos que as aparências ocupam um lugar privilegiado na cultura contemporânea. A maneira, muitas vezes, compulsiva de fazer retratos de si passou a ser uma manifestação social que revela essa obsessão pela aparência. Certa pesquisa, feita pela Academia Americana de Plástica Facial e Cirurgia Reconstrutiva, apontou que um em cada três profissionais participantes assinalou um crescimento significativo no número de solicitações de procedimentos cirúrgicos. Os pacientes argumentavam que estavam mais preocupados com as redes sociais e como eram vistos nelas. Outro estudo, dessa vez realizado com jovens britânicas, atestou a relação entre a exposição à rede social e inquietações com a própria imagem, evidenciando que as pessoas publicavam uma versão fantasiada da vida e que também utilizavam programas de edição para melhorar as fotos constantemente. Ambos os dados, noticiados na reportagem de um site brasileiro de grande porte em 2014, corroboram a ideia exposta no início do parágrafo. 

Vivemos uma intensa busca por atender a padrões impostos pela sociedade. Engana-se quem pensa que as imposições estariam restritas às tendências de beleza ou moda; todos os aspectos da vida, ao que parece, precisariam se enquadrar nesses supostos moldes. Quando damos relevância a isso de uma forma desproporcional e tentamos o encaixe a qualquer custo, nosso agir no mundo – incluindo a esfera virtual – torna-se desequilibrado e adoecido. 

A discussão pode, inclusive, ser ampliada. A cultura contemporânea explicita o “ser feliz” como um imperativo e, consequentemente, a extinção do sofrimento também. A felicidade precisa estar estampada para fins de valorização social, ainda que, para isso, anulemos nossos reais sentimentos. Aparentar ser feliz, nessa lógica, é assaz – basta um recorte ilusório para que o prazer, também ilusório, venha a emergir.

Mas o efeito é momentâneo, efêmero… “Preciso postar outra foto”, “posso ter mais curtidas”, pensam. A satisfação genuína e plena, porém, nunca chega. Vivenciar o que se retrata perdeu o sentido no meio das máscaras.

A procura por uma fantasia mais interessante que o real nos distancia de nós mesmos. Quando reproduzimos algo sem que isso passe pelo crivo da consciência, da reflexão, é possível que, sem nem percebermos, percamo-nos no abismo entre o que realmente somos e o que gostaríamos de ser para atender às expectativas sociais. Essa incongruência gera um ônus que, em longo prazo, será dificilmente superado. Precisamos nos enxergar verdadeiramente, não pelas lentes das câmeras, mas com nossos próprios olhos e perceber nossas potencialidades e limitações, aceitando-as. Dar-se conta dessas desleais expectativas e escolher viver apesar delas, de acordo com o que estamos disponíveis para sentir e enfrentar, é uma atitude libertadora. Podemos editar o mundo virtual, mas o que isso implica na concretude do para além das redes sociais?

A grande questão é esta: nossa autenticidade, bem como aprender a ser genuinamente feliz de acordo com os nossos próprios parâmetros, há de nos gerar muito mais saúde. Ademais, documentar algo jamais deverá ser mais importante que vivê-lo. Essas ideias, sim, merecem todas as curtidas.

Por Liana Scipião
Psicóloga da Casa de Criança
(Artigo extraído da Revista Criançar nº 9 / 2016)

Outras postagens